Os primeiros meses de Kevin Warsh à frente do Federal Reserve foram marcados, sobretudo, por uma mudança no perfil de comunicação da instituição. Os comunicados se tornaram mais curtos e as sinalizações, mais escassas. Segundo o novo chair, essa mudança busca permitir que a precificação do mercado reflita mais os dados econômicos e menos as sinalizações individuais dos membros do FOMC. A redução deliberada de guidance, contudo, também amplia a incerteza em torno da trajetória futura dos juros, o que já parece se refletir nos prêmios de risco do mercado, tanto na volatilidade implícita em derivativos quanto na inclinação da curva de juros.
O gráfico desta semana apresenta a evolução recente das taxas dos Treasuries de 2 e 10 anos, bem como a diferença entre elas, utilizada como medida da inclinação da curva. Observa-se um movimento de alta dos juros a partir de meados do ano passado, período marcado, entre outros fatores, pelas especulações em torno de quem seria escolhido por Donald Trump para presidir o Fed. A indicação oficial de Warsh, em janeiro, foi recebida pelo mercado como a escolha de um nome tecnicamente qualificado, período que coincidiu com o pico recente da inclinação da curva. Desde a segunda metade de junho, no entanto, a inclinação voltou a aumentar, em meio às primeiras decisões do Fed sob a nova liderança.
Tipicamente, o steepening da curva, isto é, o aumento da diferença entre as taxas de curto e longo prazo, está associado a expectativas de reaceleração da atividade, inflação mais persistente ou elevação dos prêmios de risco diante de incertezas fiscais ou monetárias. Quando a comunicação da autoridade monetária se torna menos informativa, porém, a precificação das decisões do comitê passa a incorporar uma camada adicional de incerteza, o que pode ampliar a volatilidade do mercado e os prêmios exigidos pelos investidores.
Nesse sentido, os primeiros meses da nova gestão sugerem um trade-off relevante. Ao reduzir o peso da comunicação e devolver maior protagonismo aos dados, o Fed pode tornar sua função de reação menos dependente de sinalizações prévias. Em contrapartida, uma trajetória menos previsível para a política monetária tende a elevar o preço que o mercado exige diante dessa incerteza.

